sexta-feira, 9 de junho de 2006

Os Bestializados

por Julio Canuto


É muito interessante a proposta de José Murilo de Carvalho, no último parágrafo de seu livro “Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”, ao tratar do problema central de seu trabalho, a relação entre a República, a cidade e a cidadania: “se a República não republicanizou a cidade, cabe perguntar se não seria o momento de a cidade redefinir a República segundo o modelo participativo que lhe é próprio, gerando um novo cidadão mais próximo do citadino”. O autor tem plena consciência, e também nos deixa consciente, de que a importação de modelos políticos e mesmo a imposição destes não podem dar certo num país onde poucos decidem e que grande parte da população é excluída do direito de influenciar sobre as decisões políticas relevantes. Graves conseqüências aparecem como resultado desta forma de governo. Fatos atuais, como os confrontos nas recentes ocupações dos morros cariocas pelo exército, nos mostram que se grande parte da população é excluída, ela acaba por criar novas formas de organização social que passam a viver paralelamente ao poder oficial. Até hoje se mostrou muito conveniente ao Estado e as organizações paralelas manter esta distância. No entanto, no momento em que estes se encontram, cria-se uma relação tensa, muitas vezes violenta.

José Murilo de Carvalho vai as origens destes problemas ao analisar a cidade do Rio de Janeiro à época da proclamação da República. Ao longo de seu trabalho, é impossível não relacionar os fatos atuais com os do final do século XIX, que são descritos pelo autor. Guardadas as devidas proporções, aqueles fatos parecem ainda muito atuais em suas causas.



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+ Leia na íntegra A Formação da República e da Sociedade no Brasil, resenha do livro de José Murilo de Carvalho.

+ Leia também É hora de um Neo-Abolicionismo?, de Leonardo André.

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