quarta-feira, 4 de junho de 2014

Criatividade: potencial da condição de ser humano (Fayga Ostrower)

por Julio Canuto


6621. 1966. Xilogravura a cores 
sobre papel de arroz. 47,5 x 29,5 cm.


Retomando, agora de maneira mais específica, o assunto da postagem de 04 de fevereiro de 2014, Um rolê pelas ideias, na qual falava sobre as alternativas de entretenimento e cultura na periferia, das dificuldades da atuação dos grupos de arte nestes locais e da lógica do rentismo especulativo, passo a apresentar um interessante trabalho teórico da artista plástica Fayga Ostrower (1920-2001) - com algumas de suas obras ilustrando a postagem).


Nascida em Lodz, na Polônia, Fayga mudou-se para o Brasil em 1934, com residência no Rio de Janeiro. Cursou Artes Gráficas na FGV. Como artista plástica, foi gravadora, pintora, desenhista, ilustradora. Também foi teórica da arte e professora no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, além de outras universidades brasileiras, lecionando também nos EUA e Inglaterra.


Em obra de 1977 intitulada "Criatividade e processos de criação"(28a edição, Ed.Vozes, RJ, 2013, 186 págs.), Fayga trata o problema da criatividade não como reflexão teórica, o que já seria uma obra interessante, mas como ponto central de nossa experiência vital. Não tenho a pretensão de explicar a obra, nem mesmo irei me alongar relacionando o conteúdo com outras questões. Faço apenas algumas observações e deixo alguns trechos, todos do primeiro capítulo, apenas como estímulo à leitura.

A criatividade - a liberdade de criar - é o potencial da condição de ser humano. Como processos de criação trata das condições individuais e sociais para que a criatividade floresça, com análise histórica das condições sociais nas quais importantes transformações culturais ocorreram. Por isso, Fayga inicia a introdução da seguinte forma:
O tema deste livro é a criatividade. O enfoque, o ser humano criativo.Consideramos a criatividade um potencial inerente ao homem, e a realização desse potencial uma de suas necessidades (p.5).
Em uma sociedade massificada, totalizante, a condição de ser humano é sufocada.

5823. 1958. Xilogravura em preto sobre papel de arroz. 29,7 x 84,5 cm
Site do Instituto Fayga Ostrower

Fayga trata do homem como ser consciente-sensível-cultural. A consciência e a sensibilidade são heranças biológicas, enquanto a cultura é fruto do desenvolvimento social do homem. "O comportamento de cada ser humano se molda pelos padrões culturais, históricos, do grupo em que ele, indivíduo, nasce e cresce" (p.11). Isto é, vinculado a padrões coletivos, mas com desenvolvimento individual. Ao viver, o homem transforma a natureza e também se transforma. Ao mesmo tempo que percebe as transformações, também se percebe nelas. Daí também a importância da memória como forma de compreensão da sua formação.


Sem Título. 1947. Linóleo em preto 
sobre papel de arroz 31,5 x 22,1 cm.


A percepção é a forma consciente da sensibilidade. Isto é, elaboração mental das sensações em formas organizadas (ordenadas).

Mais um trecho para elucidar a definição acima:
Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo da atividade, trata-se, nesse "novo", de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar (p.9).
Para criar, é necessário que o indivíduo tenha sua sensibilidade estimulada, e para isso sua atividade deve lhe ser significativa. Tudo isso pode parecer óbvio. No entanto, se olharmos para nossa história política e econômica, veremos que os valores do mundo cotidiano são os da produtividade, do foco no resultado, da fragmentação do trabalho, donde a ruim sensação da diminuição do tempo "útil". Mas como, se hoje temos tanta tecnologia ao nosso alcance, tanta informação de maneira rápida? Aparentemente contraditória, essa sensação refere-se à produtividade exaustiva, em prejuízo da contemplação. Daí a alienação, o que implica diretamente no bloqueio da sensibilidade.

Em nota de rodapé ela deixa uma tarefa para sociólogos:
...para se realizarem as potencialidades individuais dentro do quadro de possíveis propostas culturais, será sempre também uma questão de níveis de integração que existam em uma sociedade e se proponham aos indivíduos. Todavia, este é o problema da alienação e seria objeto de estudos sociológicos da criatividade, com específicos conhecimentos teóricos e específica metodologia. Levantada a questão, fica a tarefa de analisá-la e interpretá-la para um especialista da matéria (p.17-18).
Apenas para dar um exemplo da gravidade do tema: esses bloqueios aparecem no sistema de ensino, responsável pela integração cultural (1) em nossa sociedade, quando estimula a competitividade, avaliando a memorização de dados, ao invés de valorizar as dúvidas. É notório que os documentos internacionais e as diretrizes educacionais nacionais apontam para um caminho de aprendizagem que estimule a criatividade, mas até mesmo as formas de avaliação de escolas e docentes acabam se contaminando pelo valor da produtividade. A escola, portanto, se vê pressionada entre os valores sociais atuais e os esforços para proporcionar o desenvolvimento do potencial criativo do indivíduo. O mesmo se dá com o pouco estímulo a iniciativas artísticas fora das características de espetáculo, como falamos na postagem citada no início deste texto.

A obra de Fayga vai muito além da abordagem inicial apresentada nesta postagem.

Para finalizar, deixo os títulos dos capítulos:

I. Potencial
II. Materialidade e imaginação criativa
III. Caminhos intuitivos e inspiração
IV. Relacionamentos: forma e configuração
V. Valores e contextos culturais
VI. Crescimento e maturidade
VII. Espontaneidade, liberdade



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Conheça o site do Instituto Fayga Ostrower: http://www.faygaostrower.org.br/

Leia o primeiro capítulo de Criatividade e processos de criação, 28a edição, Ed.Vozes, RJ, 2013, 186 págs. clicando AQUI.

(1) BOURDIEU, Pierre. A Economia das trocas simbólicas. 7ª edição – São Paulo: Perspectiva, 2011.

VARIAÇÕES DO MESMO TEMA:





Tempo livre. Você tem?, janeiro de 2014.



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