segunda-feira, 30 de março de 2015

Haja política! Haja estômago!

por Julio Canuto



Não localizada a autoria.
 Passados quinze dias "da maior manifestação desde as Diretas Já", as mudanças e reações do governo a crise econômica parecem caminhar de maneira lenta e muito disso se deve ao cenário político nas relações entre executivo e legislativo, nem um pouco favoráveis ao governo, tampouco para a população, que vive ao gosto dos arranjos e desarranjos da situação, oposição e do PMDB, esta terceira e grande força que joga - sim, esta é a palavra certa - com o poder.

O quadro é de confusão. Brevemente tentarei expor meu ponto de vista:

MANIFESTAÇÕES

De um lado uma manifestação grande, que demonstra muito descontentamento, direcionada contra o PT, mas que talvez até por isso, para não se caracterizar como partidária, acaba por não trazer elementos concretos. Apesar da adesão, não creio na força desse movimento (que são três diferentes!). Em primeiro lugar porque manifestar contra a corrupção ou contra o governo é muito vago. Assim como em 2013, quando outras pessoas aderiram as manifestações, o ato pode se perder por falta de foco. Naquela ocasião, o Movimento Passe Livre fez um ótimo papel ao fazer sua reivindicação focada e se retirando no momento oportuno, deixando claro o seu posicionamento e as suas lutas. Tanto é que deu resultado. Os demais que ficaram se manifestando por "mais saúde, mais educação, mais segurança", tiveram como resultado apenas discursos. Em segundo lugar porque manifestar-se contra a corrupção vestindo uma camisa da CBF é extremamente incoerente e põe em dúvida o sentido de toda mobilização. Talvez, estes estejam mais próximos daqueles que causaram um enorme vexame xingando a presidente na abertura da Copa do Mundo, ocasião que por conta o jogo, estavam com a camisa da seleção, e que ficaram conhecidos como yellow bloc.

PMDB

De outro lado, temos a centralidade do PMDB em todo esse processo. O PMDB se tornou o maior partido brasileiro: tem a Vice Presidência da República, conta com grande bancada na Câmara dos Deputados (elegeu 65 deputados em 2014, dos 513), 18 dos 81 senadores, muitos governadores e mais de 1.000 prefeitos. Ainda assim, e apesar de sua rica história na reconquista da democracia brasileira, quando ainda era denominado MDB, não mostra claramente um projeto de nação, sobressaindo muito mais as divergências entre seus líderes, alguns dos quais apoiam o governo e outros claramente de oposição. A imagem que fica para a população, infelizmente, é a de um partido que vive na conveniência de ser imprescindível para a governabilidade apenas na quantidade de representantes, não como norteador de políticas. Pior, parece estar acomodado nessa situação, variando nas motivações para isso a depender do analista.

GOVERNO

Por fim, o governo tem se isolado. Perdeu boa parte de sua base de apoio (leia a matéria: "de cada 10 aliados, 3 votam contra Dilma"), tem baixo apoio popular e até mesmo o partido da presidência mostra muito descontentamento com as decisões. A presidente, aliás, foi muito criticada com a nomeação de seu ministério, inclusive por seus próprios eleitores. Nomes como Kátia Abreu, Gilberto Kassab e Cid Gomes não foram bem vistos. O pior é que até mesmo dentro do governo há criticas contra a presidente, como as reiteradas falas de Joaquim Levy, ministro da Fazenda, nomeado para "agradar o mercado".  

CONGRESSO NACIONAL

Junta-se a isso a aparente paralisação das atividades por conta das investigações e revelações da operação Lava Jato, sobre os crimes de corrupção na Petrobrás, o que impacta negativamente tanto a imagem do país no mercado internacional, como a economia interna, com reflexos no desemprego. Com este cenário arrastam-se as ações e medidas para enfrentar o período. A Câmara, ao invés de atuar para a melhoria dos rumos do país, parece mais interessada em montar um palanque criando uma CPI que não serve para absolutamente nada, uma vez que as investigações já ocorrem desde o ano passado. Voltando as ações, muitas são impopulares pois afetam diretamente os trabalhadores. Óbvio que muitas coisas na legislação trabalhista, mais cedo ou mais tarde, teriam de mudar, pois o mercado de trabalho tem mudado, e mesmo a estrutura etária da população tem mudado. O problema é que não se falou sobre isso ate então, e mesmo agora essas mudanças se apresentam apenas como medidas para cobrir o rombo fiscal, e não para reorganizar a estrutura dos direitos trabalhistas, tornando-o mais adequado a realidade. Ou seja, um claro sinal de que quem pagará as contas pelos erros do governo são os trabalhadores. 

Uma outra alternativa para cobrir o rombo fiscal é a taxação das fortunas, da qual Joaquim Levy é contra, mas parece estar caminhando nesta direção. O problema, neste caso, é enfrentar as possíveis resistências, já que neste grupo dos mais ricos estão as famílias, Marinho, Civita, banqueiros, donos de construtoras e também o Grupo JBS, a maior doadora da candidatos. Isto é, mídia, bancos, construtoras e o maior doador. Seria uma boa briga. 

Sobre isso, vale a pena navegar pela página "Eles elegem", do Estadão Dados, para ver quanto cada deputado recebeu de doação e de quais empresas: http://estadaodados.com/eles_elegem/# A JBS doou para todos!

Haja política! Haja estômago!

Fernando Vieira. Confusão.
Enfim, há os que comparam o atual momento com o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, que teve um primeiro ano bem difícil, mas depois foi se recuperando, embora tenha encerrado seu mandato com alto índice de desaprovação, resultando na derrota nas urnas em 2002.

Penso que realmente estamos em um momento delicado e muito dessa situação foi causada por sustentar uma economia baseada no consumo, quando ainda cerca de 40% da nossa força de trabalho não completou o Ensino Fundamental. Este é, na minha opinião, o maior problema a ser enfrentado e que não é novo, e que apesar do lema do atual governo - Pátria Educadora - não me parece se concretizar grandes esforços nesse sentido. Infelizmente.



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