sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Encruzilhada entre Obrigação e Propósito


"Obrigação é como as outras pessoas querem que nós vivamos nossas vidas... Escolher o Propósito é a melhor coisa que podemos fazer com nossas vidas."

por Maria Popova/Brain Pickings* 
tradução: Leonardo André

"Será que o que se passa pelo lado interno pode ser visto pelo lado externo?", o jovem Vincent van Gogh desabafava em uma carta comovente a seu irmão enquanto lutava para encontrar o seu propósito na vida. "Alguém possui uma chama em sua alma e ninguém nunca se aproxima para se aquecer, as pessoas passam e não veem nada além de fumaça no topo da chaminé". Um século mais tarde, Joseph Campbell jogou lenha na fogueira da alma com seu tratado fundacional em busca pela felicidade. E ainda hoje, inúmeras almas crescem pálidas e enclausuradas ao redor do mundo sucumbindo à tendência humana de escolher o que devem fazer para ganhar a vida ao invés de buscarem aquilo que simplesmente desejam fazer para se sentirem vivos.

Como transformar essa chama interior e invisível em combustível para aquecer a alma é o que a artista e designer Elle Luna explora em ensaio-que-virou-livro. The Crossroads of Should and Must: Find and Follow Your Passion (algo como A Encruzilhada entre Obrigação e Propósito: Encontrar e Seguir a sua Paixão, sem versão em português) – um inteligente e empolgante manifesto ilustrado que começa onde Campbell parou, no espírito do empolgante guia de Parker Palmer para deixar sua vida falar e o ensaio-visual-que-virou-discurso-de-formatura de Debbie Millman sobre coragem e vida criativa.

Distinguindo entre um emprego ("algo feito tipicamente das 8h às 18h em troca de salário”), uma carreira ("um sistema de avanços e promoções ao longo do tempo, onde as recompensas são utilizadas para otimizar o comportamento"), e uma vocação ("algo que nos sentimos compelidos a fazer, independentemente da fama ou fortuna "), Luna relata o momento crucial em sua própria vida quando se viu incapaz de discernir qual era o caso dela. Como novata em uma Startup promissora, ela estava trabalhando incansavelmente em um produto em que ela acreditava profundamente e, ainda assim, se sentia desorientadamente insatisfeita. Ela encontrou-se diante de uma encruzilhada reveladora: a encruzilhada entre Obrigação e Propósito.

Luna escreve:

Obrigação é ​​como as outras pessoas querem que nós vivamos nossas vidas. É todas as expectativas que os outros jogam em cima de nós.
Às vezes, Obrigações são bobagens, aparentemente inócuas, e facilmente acomodadas. "Você deveria ouvir essa canção", por exemplo. Em outras ocasiões, Obrigações são sistemas altamente influentes de pensamento que pressionam e, de forma mais destrutiva, coagem-nos a viver uma vida estranha a nós mesmos.



Ecoando a famosa advertência de Eleanor Roosevelt – "Quando você adota as normas e os valores de outra pessoa... você entrega sua própria integridade", escreveu a mais antiga Primeira Dama ao considerar a conformidade e o segredo da felicidade, "[e] se torna, na medida de sua rendição, menos que um ser humano" – Luna acrescenta:

Quando se escolhe Obrigação, estamos escolhendo viver a nossa vida para alguém ou algo diferente de nós mesmos. A viagem da Obrigação pode ser mais fácil, as recompensas podem parecem claras, e as opções são muitas vezes abundantes.

Ela oferece um contraponto:

Propósito é ​​diferente. Propósito é ​​o que somos, o que acreditamos e o que fazemos quando estamos sozinhos com o nosso mais verdadeiro, mais autêntico eu. É o que nos toca mais profundamente. São nossas convicções, nossas paixões, nossos mais profundos anseios e desejos retidos – inevitável, incontestável e inexplicável. Ao contrário da Obrigação, o Propósito não aceita compromissos.

Propósito é ​​quando paramos de nos conformarmos aos ideais de outras pessoas e nos conectamos com nós mesmos – e isso nos permite cultivar nosso pleno potencial como indivíduos. Escolher o Propósito é ​​dizer sim ao trabalho duro e esforço constante, é dizer sim a uma viagem sem mapas ou garantias, e ao fazê-lo, dizemos sim ao que Joseph Campbell chamou de "a experiência de estar vivo, de modo que nossas experiências de vida no plano puramente físico terá ressonância dentro do nosso ser mais íntimo e da realidade, de modo que realmente sentimos o êxtase de estarmos vivos”.

Escolher o Propósito é a melhor coisa que podemos fazer com nossas vidas.

E apesar de tão simples quanto a elegante prosa de Luna faz parecer, qualquer pessoa que tenha vivido esta encruzilhada irá atestar que não é nada fácil; a estrada está cheia de escolhas difíceis. Luna considera a relação osmótica entre Obrigação e Propósito, mesmo quando separamos um do outro:

Se você quiser conhecer o Propósito, tem que conhecer a Obrigação. Este é um trabalho árduo. Um trabalho realmente difícil. Inconscientemente nos aprisionamos para evitar os nossos medos mais primários. Nós escolhemos a Obrigação porque escolher o Propósito é aterrorizante, incompreensível. Nossa prisão é construída a partir de uma vida inteira de Obrigações, o mundo das escolhas que nós involuntariamente aceitamos, as barreiras que nos alienam de nosso mais verdadeiro, mais autênticos eu. A Obrigação é como a porta de entrada do Propósito. E assim como você cria a sua prisão, você pode conquistar sua liberdade.

Uma das formas mais comuns de nos aprisionarmos a nós mesmos é comparando-nos aos outros e, ao nos vermos em situação inferior, arrumamos desculpas – circunstâncias que achamos injustas, pessoas que acreditamos serem responsáveis ​​por tais circunstâncias, ou algum elemento abstrato do destino que pensamos ser alguma sacanagem. O problema da autossabotagem é que muitas vezes acabamos por julgar as nossas circunstâncias em comparação aos resultados alcançados por outras pessoas, esquecendo que o trabalho duro e as escolhas difíceis são os agentes de transformação entre circunstâncias e resultados.

Joseph Brodsky captou isso com precisão no maior discurso de formatura de todos os tempos, advertindo: "Um dedo apontado é a marca de uma vítima... Não importa o quão abominável sua condição possa ser, tente não culpar nada e nem ninguém: a História, o Estado, os superiores, a raça, os pais, a fase da lua, a infância, o controle esfincteriano, etc. O menu é vasto e tedioso, e essa vastidão, assim como o tédio, por si só deveriam ser ofensivos o suficiente para ajustar a inteligência contra essa escolha. No momento em que você coloca a culpa em algum lugar, você fragiliza a sua vontade de mudar qualquer coisa".

Luna aponta esta tendência perigosa que ela considera a origem da Obrigação:

Quantas vezes colocamos a culpa em outra pessoa, no trabalho, ou em alguma situação quando o problema real, a dor real, está dentro de nós? E vamos embora, irritados, frustrados, tristes e, inconscientemente, carregando a mesma Obrigação para um novo contexto – para o próximo relacionamento, para o próximo trabalho, para a próxima amizade – esperando resultados diferentes.

Como reconhecer a Obrigação da maneira mais íntima possível, para que possamos começar a seguir em direção a resultados diferentes, mirando o Propósito, é o que Luna examina no restante de A Encruzilhada entre Obrigação e Propósito. Nesta maravilhosa entrevista para o programa Design Matters com uma de suas heroínas e maiores influências criativas, Debbie Millman, Luna discute como o livro surgiu, a viagem incomum que o originou, e por que gerou tanta repercussão – muito além de suas expectativas – com tantas pessoas em tantas esferas da vida:


Propósito é ​​fantástico, e o Propósito é ​​apenas o outro lado da Obrigação. Obrigação é este mundo de expectativas – é como uma força camuflada. Isso é uma das coisas mais difíceis da Obrigação – é o tipo de influência que age quando você não está olhando. É o caminho mais fácil – é essa força invisível movendo-se contra nós [e] muitas vezes desde muito cedo na vida. Pode partir do momento em que nascemos, da sociedade ou a comunidade em que nascemos, do corpo em que nascemos... pode partir de um monte de situações diferentes que ocorrem no início da vida [que] realmente determinam essa trajetória... e, muitas vezes, nos faz correr uma corrida diferente da que tínhamos a intenção de correr.
_______________________________________________

*Clique aqui para ler o artigo original: Brain Pickings.

***


Nenhum comentário: